O P. Edson Santana, missionário brasileiro da CMV, vai para Moçambique na segunda-feira, 18 de setembro. Nesta entrevista, compartilhamos a sua vocação e os seus desejos missionários diante dessa nova experiência missionária.

Comece por nos dizer quem você é ...?
Meu nome é Edson, tenho 42 anos e nasci em São Paulo (Brasil).  Eu sou o primogênito de 4 irmãos; tenho uma irmã casada que tem dois meninos e um irmão que ainda mora com a mãe, o outro irmão morreu há um ano e meio.  Minha família é um dos presentes mais bonitos que o Senhor me fez, apesar das dificuldades de uma família nos subúrbios do sul de São Paulo (considerado um dos mais violentos), reconheço que era uma escola de vida concreta para mim, um lugar onde descobri a fé, onde aprendi a "me virar", uma expressão que minha mãe usava muito.
Conheci a Comunidade em 1997, um ano depois da sua chegada na minha diocese de origem Campo Limpo, faço parte da Comunidade desde o 2 de fevereiro (Festa da Apresentação do Senhor no Templo) de 1999. Eu vivi 6 meses na comunidade em São Paulo e depois mais de 4 anos e meio em Belo Horizonte, onde fiz os primeiros anos de estudo. Durante 13 anos vivi na Itália: 4 anos e meio em Villaregia, onde completei os estudos de Teologia em Pádua e outros 7 anos e meio em Imola, onde fui enviado pouco depois da ordenação sacerdotal que ocorreu em São Paulo em 6 de dezembro de 2008.

Como você conheceu Deus?
Conheci Deus através da fé simples de meus pais e o profundo desejo que eles tinham de comunicar os valores da vida cristã: oração, participação na celebração eucarística e disponibilidade para outros.

E seu chamado para a vida missionária?
Logo após ter recebido o sacramento da Crisma, quis ajudar como catequista na minha paróquia, antes com as crianças e depois com os jovens que se preparavam para a Crisma, experiência que me fascinou muito. Tentei viver este serviço com profundidade e coerência e, nessa caminhada, nasceu uma pergunta que não me deixava em paz: "Quem pensa a todos aqueles jovens que não caminham para receber a crisma, a todos aqueles jovens que escolheram outras estradas, que estão longe de Deus?" Tentando responder à esta pergunta e muitas outras que tinha no coração, especialmente, qual era a vontade de Deus para mim, no encontro com a CMV e através do testemunho dos missionários que conheci, descobri o chamado à vida missionária.

Pe. Edson, muitas vezes vemos você orando o rosário, o que você quer dizer com sua vida?
Sempre senti muito forte a presença de Maria no meu caminho, como guia e modelo de pessoa que soube entregar a sua vida nas mãos de Deus; logo que entrei na Comunidade nasceu imediatamente o desejo de me consagrar a ela. Nos últimos anos, essa relação cresceu muito devido a várias experiências de peregrinação a Medjugorje que fiz. Rezar o Rosário para mim, além de renovar meu relacionamento com Maria, também é um modo para estar em comunhão com Deus e o seu Mistério de amor que se encarnou em Maria e também um modo para distanciar as tentações.

Você tem 13 anos na Itália, o que significou para você o encontro com os italianos?
Eu vim para a Itália para concluir os estudos de teologia e, no início, parecia um "castigo" para mim, ter que estudar em uma outra língua; mas acabou se tornando uma experiência maravilhosa pela qual eu agradeço muito a Deus. O encontro com a cultura italiana me ajudou a crescer como pessoa e como missionário, me fez compreender a outra face do ser missionário, que sai da sua terra e que evangeliza testemunhando a sua fé no encontro com os pobres e com um profundo desejo de construir fraternidade com todos.

Nos últimos meses, em Villaregia, você foi amigo do Felipe, você pode nos dizer como você o conheceu e o que o traz para o relacionamento que construiu com ele?
Neste útlimo ano eu vivi em Villaregia e experimentei na minha pele o que significa aoclher um refugiado: não é somente proporcionar uma estrutura, mas abrir os braços, os ouvidos e o coração; e foi isso que experimentei com Felipe que veio do Guiné-Bissau (onde se fala o português também). A amizade entre nós, eu acredito, nasceu porque ele se sentiu acolhido, ouvido e amado. Com ele compreendi mais uma vez que não existe uma pessoa tão pobre que não tenha nada para doar, porquê com ele aprendi e recebi muito, muito mais daquilo que eu pude dar. E é essa a experiência que gostaria de viver com os irmãos moçambicanos.

Sua vida e a sua família nestes anos foram marcadas pela dolorosa experiência da perda de seu irmão, vítima inocente de uma bala perdida nos arredores de São Paulo, como que você  se apoiou no tratamento desse sofrimento?
Em primeiríssimo lugar foi Deus que nos sustentou, através da oração, do carinho e da presença silenciosa de tantas pessoas amigas; neste momento pude experimentar que mesmo na dor, Deus nunca abandona seus filhos, especialmente quando você tem a sensação que alguém arrancou um pedaço do seu coração! Um excelente exemplo para mim foi a minha mãe que, com sua fé inabalável, conseguiu superar esse doloroso momento através da participação na Eucaristia todos os dias.

O que você encontrará em Moçambique?
Cheguei aqui na semana passada e encontrei uma Comunidade muito empenhada na vida pastoral e em alguns projetos a favor dos mais pobres, especialmente jovens que estiveram na prisão, mulheres e crianças. Nestes dias pude contemplar as maravilhas que Deus tem operado na vida de tantos irmãos através da presença e do serviço da nossa Comunidade, sustentada pela ajuda concreta de tantos amigos, voluntários e benfeitores. O grande desafio é ajudar esses irmãos a reconquistar a própria dignidade para se tornarem os protagonistas da própria história.
     
Com que desejos você compartilha?
Eu parti com o desejo de ouvir com o coração, amar e de "estar" com os nossos irmãos moçambicanos e, com os braços abertos, receber toda a riqueza que eles serão capazes de me doar.
 
Qual última mensagem você quer nos deixar?
Gostaria de viver profundamente a missão de Cristo em Moçambique, com a consciência de que: "É necessário que eu anuncie a boa nova do Reino de Deus também às outras cidades, pois essa é a minha missão" (Lc 4, 43).