Como Comunidade, vivemos uma experiência missionária de irmos ao encontro dos nossos irmãos da Vila Esperança, junto com o Grupo Constelação. Da nossa família, fomos todos: eu, meu esposo e nossos 4 filhos: de 15, 11, 10 e 6 anos.

 

Para nós, foi uma linda experiência e tivemos a alegria de vivê-la com outros membros da nossa Comunidade Missionária - missionários, missionárias, consagradas no mundo e outros casais. Senti que foi uma experiência simples, mas ao mesmo tempo, forte do nosso carisma: tínhamos ali o rosto completo da Comunidade, indo ao encontro dos irmãos mais pobres, levando o amor de Deus e o amor entre nós, partilhando a sede de justiça e dignidade para cada homem. É o que desejamos viver como Comunidade, é o dom que desejamos partilhar com o mundo.

 

 

Encontramos algumas famílias, escutamos suas histórias, entramos em suas casas e um pouquinho em suas vidas de lutas e sofrimentos. Vimos muitas dificuldades, mas também muita dignidade, na forma peculiar de cada família lutar por uma vida melhor, muita “esperança” de ter sua casa própria, de ter um trabalho e poder oferecer boas condições aos filhos. Fiquei tocada pela acolhida, pela alegria das pessoas com a nossa presença. Uma senhora nos disse que se sentia muito abençoada e feliz por nos receber em sua casa e disse: “Ninguém visita a gente, ninguém vem na nossa casa, só o Pe. Siro e as meninas” (se referindo ao grupo Constelação que realiza um belíssimo trabalho naquela Vila). Pensei que não tínhamos nada para oferecer, a não ser nós mesmos, nossa fraternidade, nossa vida de Comunidade, o desejo de “sermos um para que o mundo creia”. Lembrei-me da experiência de Pedro à porta do templo com aquele coxo que pedia esmolas: “não tenho ouro nem prata, mas tudo o que tenho te dou; em nome de Jesus Cristo, levanta-te e anda”.

 

Na nossa fragilidade e imperfeições, estávamos ali, com o nosso maior tesouro, a experiência trinitária que desejamos encarnar, o nosso querer bem uns aos outros, a presença de Deus gerada na nossa comunhão e a grande alegria de estar com eles, acolher suas vidas e nos unir à esperança e à luta por uma vida com mais dignidade.

 

Para nossa família foi uma experiência forte. Depois, nos escutando, percebemos como cada um dos nossos filhos a viveu, a seu modo. A filha de 6 anos é a que mais expressa seus sentimentos. Ela disse “meu coração tá sensível com o sofrimento daquelas pessoas. Elas não têm tanta coisa que a gente tem...”. A outra chamou a atenção para algumas dificuldades que tivemos de andar em pontos bem perigosos da Vila, próximos à BR. Ela sentiu muito medo na hora e, em casa, comentou que “isso é o que eles vivem a cada dia”. A mais velha ficou indignada com as condições precárias de vida e moradia daquelas pessoas, questionou o governo, pensou em formas de reivindicar melhorias para eles. Nosso filho fez amizade com um menino de uma das casas e contou-nos que foi com ele ao seu quarto procurar algo para brincar; como ele não tinha nenhum carrinho, brincaram com uma tampinha de remédio – nosso filho não sabia como brincar e o novo amigo ensinou-lhe como fazia para lançá-la como um peão.

 

 

Ao final, celebramos todos juntos e não tinha melhor forma de encerrar aquela experiência, apresentando juntos a Deus tudo o que vivemos, todas as lições que recebemos, a esperança de que a fraternidade seja a força transformadora da nossa sociedade, a certeza de que saímos muito enriquecidos, deixando um pouco de nós e levando muito da vida deles.

 

 

Termino com o sentimento da nossa filha mais nova, que, nessa semana, passou em frente à Vila quando voltava da escola. Ela comentou que observou aquelas casas e pensou que eram parecidas com a Vila Esperança e, depois, percebeu que era mesmo a Vila Esperança. Fiz o comentário: “então você se lembrou?” Ela respondeu: “é claro, mamãe, eu guardei eles no fundo do meu coração”. Nós também carregamos estes irmãos no fundo do nosso coração, um coração que desejamos que se torne sempre mais missionário, carregando e pulsando por cada irmão que tem sede de pão e de Deus, os que estão perto de nós e os que estão muito além das nossas fronteiras, nos confins do mundo.

 

 

Círia, Paulinho e filhos